Todas as grandes religiões apresentam duas faces. A primeira, mística, aponta para o alto, estabelecendo a relação entre o homem e o mundo espiritual. È a essência eterna de cada religião. A segunda, social e moral, ditam as normas de vida e pode mudar em função dos povos e das circunstancias históricas.
Isto está sendo esclarecido em função do problema que tratarei nestas minhas considerações, ou seja : o conceito de sexo no cristianismo.
De fato, na religião que veio a ter o predomínio no mundo ocidental, presenciamos a uma confusão absoluta entre as normas que tem finalidades ascéticas e religiosas (e para tanto são destinadas a uma pequena minoria de ministros do culto,que aqui chamaremos de “vocativos”) e as que destinam-se a grande massa dos fieis.
Analisando as outras grandes religiões, tais como a Hebraica, o Bramanismo,o Islam. e o próprio Budismo, reparamos que nenhuma julga e condena a ordem da natureza, especificamente na parte que diz respeito ao sexo e a mulher. E mais, na ótica da natureza como obra divina, a lei transmitida aos “habitantes do mundo” procura tornar sagrada qualquer atividade e impulso, dando um cunho espiritual a tudo que o ser humano faz. Nisto incluso o ato sexual.
No cristianismo as coisas são bem diferentes. A apologética cristã diz a respeito das outras religiões “pagãs”, que elas são dependentes e submissas a tudo que é ‘natureza’,e continua tentando introduzir na vida do mundo normas valida somente no plano transcendente. Exemplos disto têm de sobra: “Ama teu próximo como a ti mesmo”; ” Se alguém vos bater na face direita, apresentai-lhe também a outra”; e assim por diante…me desculpem os leitores, isto pode valer para quem tem vocação a santidade,certamente não, para quem vive no mundo. Com estes princípios não se normaliza uma sociedade, torna-se sim impossível, qualquer sociedade.
Que eu saiba não existe estado nenhum, rigorosamente construído sobre a moral supramundana dos evangélicos; e apesar dos esforços dos teólogos para minimizar o dualismo entre o mundo natural e o sobrenatural, características do cristianismo das origens, a confusão entre as duas faces da religião continua.
Isto vale especialmente em relação à sexualidade: parece existir uma espécie de “ódio teológico” para usarmos a expressão do Pareto, que associa o sexo ao pecado e colocam o cristianismo em posição antagônica frente às outras grandes religiões já citadas.
Estas sim sempre procuraram santificar a sexualidade, glorificando o ato como um reflexo no homem do poder divino. O Islam. inclui invocações a Deus durante o coito.
Na antiga religião persa eram prometidas graças especiais aos amantes mais ardentes. Correntes do Hinduísmo e do Budismo utilizam o sexo para alcançar a iluminação (ver o meu comentário sobre o Pankatattwa). Enfim a lista é infinita. Basta aqui dizer que Platão associa o fatos erótico com varias formas iniciativas e proféticas.
Afirmar que no cristianismo não há vestígios disto tudo, é pura verdade. Os católicos respondem que existe o matrimonio, mais este sacramento formou-se em volta do século treze e tornou-se obrigatório somente no Concílio de Trento. A lei é monogâmica, em contraste com o Antigo Testamento que reforça a poligamia e, mais uma vez, exibe o “ódio teológico” fazendo do sacramento em questão um quebra galho ou, como diz São Paulo : [Quod si non se continent, nubant. Melius est enim nubere, quam uri], ou seja [Aqueles que não conseguem se conter [do que? Do pecado da carne, é implícito] que se casem. Melhor casar-se que arder].Caso contrário é a castidade, a abstinência, o que seria o ideal: não um conúbio sagrado mais um conúbio casto.
Para tanto, fim único do casamento seria a procriação, qualquer outro, mesmo entre casais, sería pecado. Mais que pobreza, senhores teólogos!! Já passou da hora de sair de cima do muro e tomar uma posição mais atual. Hoje em dia, tanta hipocrisia já era, depois que a vaca foge, não adianta fechar a porteira. O excesso de repressão de tudo quanto era relacionado ao sexo, levou a um turbilhão direcionado ao mais puro primitivismo o “rewilding”, retorno ao estado selvagem. Depois de séculos de excessos de um lado, assistimos hoje aos mesmos, do outro lado da balança e se faz urgente a pontualização do que é sexo e do que é espiritualidade.
GianValjeant